Cyberdance: uma dança potencial  

Cyberdance: uma obra infactível  

A elaboração do cyberdance teve por base a arte combinatória, a metáfora da dança e a sua potencialização, porém com o uso da combinatória nos deparamos com um número assustador de possibilidades. Isto ocasionava um problema. As obras que desenvolvem um alto grau de complexidade, tornam-se do lado da produção algo quase impossível de realização, daí tivemos de elaborar meios para superar este impasse.  

Para tal levamos em consideração três coisas:a primeira foi uma estratégia para produção de uma obra infactível, a segunda relativa a própria obra como resultado onde nos deparamos com a sua indeterminabilidade e a sua infactibilidade, e finalmente a terceira, a ação do navegador através da obra e com sua interação participativa.  

Na estratégia para a produção da obra foram desenvolvidas três táticas no intuito de se atingir tanto a exeqüidade como a complexidade desta: 1- a tática das redes consistia em estabelecer relações de uma parte com outras partes da obra, o que levava a uma ligação completa entre elas, ou seja, todas estão ligadas entre si de tal modo que possa ir de uma parte a outra qualquer dentro da obra. A vantagem de uma obra de ligação completa é que com poucos elementos pode-se atingir um alto grau de complexidade onde o problema do infactível pode ser solucionado; 2- a tática da navegação múltipla se esboçou a partir da simultaneidade das partes entre si e para desenvolvê-la inventamos uma ligação a qual chamamos de condisjuntiva ou multi-juntiva, que age silmultaneamente como uma conjunção e uma disjunção. Uma ligação disjuntiva é aquela que normalmente nos leva de um lugar a outro dentro da rede, a partir de uma escolha anterior, esse fato ocasiona duas coisas: uma ligação e uma desligação da parte que antes o navegador se encontrava; já a ligação conjuntiva traz para o lugar principal uma outra parte, uma outra camada, uma outra janela, acrescentando informação sem contudo sairmos desse lugar principal, porém na ligação condisjuntiva, novamente temos uma ligação e uma desligação, mas não de modo linear, não navegamos mais de forma meramente sucessiva, mas silmutaneamente o que ocasiona uma tranformação no lugar principal, na medida em que a nova parte estabelece uma nova distribuição no lugar principal, criando uma navegação de múltiplos percursos, onde cada um deles tem sua própria navegação, e assim a cada momento ao se penetrar na obra, há um aumento na complexidade da navegação. Navegação em esquadrilha, em comboio e em caravana ou navegação potencial.3- este fato ocasionou a tática da interação completa ou de interação reciproca de todas as partes, pois cada parte assim como cada elemento podia agora interagir entre si, isto só foi possível com a ligação condisjuntiva, que tornava possível a simultaneidade e a presença das partes da obra criando uma interação completa.  

Quanto a obra, ela se tornou deste modo ilimitada, pois é impossível percebermos sua dimensão, assim como as quantidades das combinações envolvidas, a não ser matematicamente através de uma exponencial, o que não resolve o problema, pois ela continua para a percepção do navegador não tendo limite definido. Ela é, portanto, sem fim e sem início.Daí ela  pode ter várias entradas, onde cada uma das entradas pode configurá-la diferentemente, como num labirinto onde cada entrada reconfigura seus caminhos. Assim ela é muito mais uma multiplicidae móvel de percursos do que uma arquitetura de caminhos fixos. Há também uma maleabilidade das sua partes, esta maleabilidade é o componente aberto que as partes podem ter entre si de tal modo que a distribuição entre elas assim como o contato mútuo possam ocasionar diferenciais e novas distribuições, o que muitas vezes leva a dificuldades que exigem novas soluções. Outro fator e talvez o mais importante é a sua infactibilidade pois considerada diacronicamente, ela não pode ser exeqüível pois o número de partes e combinações envolvidadas a tornam inviável completamente. Porém é esta infactibilidade que permite que a obra seja sempre re-inventada, ou seja, ela pode evoluir.  

Quanto a obra em relação ao navegador consideramô-la como interação, porém não uma interação mecânica, na qual as partes envolvidas reagem meramente a uma determinada ação, pensamô-la como uma interação participativa e inventiva que consiste em que o navegador estabeleça as regras livremente, isto é, elas não são dadas "a priori". Cada navegador pode assim estabecer novos comportamentos com a obra, assim como através de micro variações de suas interações, ele poderá criar seu próprio estilo.  

Imaginamos também que as obras elaboradas desta maneira poderiam se comunicar e interagir com outras obras do mesmo tipo, o que ocasionaria modificações nos seus elementos internos, tornando-as assim mais complexas e imprevisíveis, não obstante muito mais transmutáveis; ou seja a variabilidade dos elementos depende da interação das obras entre si.  

Vivemos numa época em que cada vez mais os cyberartistas, através da potencialização tecnológica se deparam com o problema de como construir um mundo. A lição que aprendemos é que inventar um mundo é inventá-lo completamentamente incompleto, ou em outras palavras, fazê-lo infactível. 

Ricardo Barreto