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Com a "arte combinatória" torna-se possível o desenvolvimento de uma linguagem mais compatível com os computadores e a programação. Eses não só pressupõem uma combinatória como se utilizam dela o tempo todo. Essas características facilitam a potencialização das propostas e do desenvolvimento das animações computadorizadas, que podem agora ser operaradas de forma não linear e de maneira interativa. O projeto Cyberdance partiu de uma reflexão sobre dois exemplos: os filmes históricos, "Balé Mecânico" de Léger e "Pas de deux" de Mac Laren. No início do século XX, o artista plástico Ferdinand Léger, influenciado por Marcel Duchamp e por Man Ray, criou o filme intitulado " Balé Mecânico", aproximando a dança do cinema. O filme exibe uma intricada colagem de fragmentos de corpos humanos com fragmentos de máquinas ( engrenagens). A preocupação de Léger, nesta obra, era explorar o movimento como elemento principal. De um lado, estava o movimento natural humano e de outro o movimento artificial das máquinas. Ambos se confrontavam numa dialética homem-máquina que só era possível pela utilização câmera de filmar e do projetor. Estas máquinas imprimiam um ritmo ao filme compatível com os homens e as máquinas industriais modernas, expressando o espírito de seu tempo. Com Léger, o conceito de dança se ampliou, ou melhor, saiu de um espaço e entrou em outro. A dança não se restringia mais a corpos humanos, as máquinas também dançavam. Ela não mais residia apenas no espaço real, e sim também no espaço virtual. A obra de Mac Laren é outro exemplo de experiência significativa. Este artista, que desde o início de suas pesquisas, preocupou-se em utilizar o filme e o cinema de uma maneira inédita e inovadora; explorava novas possibilidades de movimento ao pintar diretamente na película, criando uma espécie de pintura dinâmica. Nelas, as formas e as cores se movimentavam, parecendo verdadeiros quadros vivos e aproximando-se da música e da dança. Nesse caminho, Mac Laren criou o "Pas de deux", um filme que descreve o movimento dos bailarinos passo a passo, ou seja, toda a seqüência do movimento era mostrada na tela. Seguindo os passos de Etienne-Jules Marey e de Muybridge, Maclaren mostrava uma outra dimensão da dança. Era agora possível coreografá-la na própria película. Isto possibilitava coreografias totalmente desvinculadas de coreografias reais, restritas às articulações próprias dos corpos, à gravidade e ao espaço real. O trabalho de Maclaren, contudo estava limitado a uma mídia linear. Com as novas mídias contemporâneas, as propostas de Léger e de Maclaren poderiam assumir novas características. É neste contexto que se insere a proposta de Cyberdance. Procurando prosseguir nas descobertas dessas pesquisas anteriores, ela explora a dança no espaço virtual. Este novo espaço é grande e complexo, Nele, abrem-se tantas portas e caminhos que a probabilidade de se perder é quase certa. Fomos, então, buscar uma certa estratégia e um certo mapa, não para sair do labirinto, mas para podermos explorar a sua riqueza. Buscamos esse mapa numa arte muito antiga chamada de "arte combinatória". A origem da "arte combinatória" se perde no tempo. Ela surge tanto no ocidente como no oriente. Porém, no ocidente, ela ganhou muitas facetas, muitas utilidades e também severas críticas, que temos que considerar já que iremos utilizá-la como um sistema orientador para a exploração da Cyberdance. A primeira referência e a mais antiga que temos sobre a "arte combinatória" é chinesa. Trata-se do I-ching, também chamado o livro das mudanças que se baseia em duas forças, yang e yin, completamente opostas. O sistema do I-ching é um sistema binário, e as forças são representadas, respectivamente, por uma linha inteira (yang) e por uma linha partida (yin). Das combinações destas duas forças, emergem os hexagramas. Logo, dois elevado à sexta é igual a sessenta e quatro hexagramas, que são por sua vez distribuídos de formas simétricas e que serviam a toda sorte de previsão mística da vida cotidiana individual e social. A simetria tinha a função não só de transmitir beleza ao sistema, mas também de estruturar a relação da parte com o todo. Outra referência antiga(judaica) é a do livro intitulado Sefer Yetzirath ou o livro da criação. Aí encontramos dois usos místicos da combinatória. No primeiro, em seus duzentos e trinta e um portais que consistem na combinação das vinte e duas letras do alfabeto hebraico e no segundo, na arvore da vida que é a combinação das Sefirotes entre si. Para o livro da criação não só o universo teria sido inventado pela combinatória sagrada, mas também seria possível ao homem através dela inventar, em escala menor, seres portadores de movimento e intenção; trata-se do mito do Golem, uma espécie de robô mecânico ou genético que seria criado pela permutação mágica das letras hebraicas. Havia também, uma referência grega, no entanto, dos fragmentos
que sobraram só podemos perceber a combinatória de forma
implícita. É o que acontece quando lemos Empédocles
( filósofo do século VI ac). Ele concebeu sua filosofia para
explicar a origem do universo a partir da multiplicidade. Com apenas seis
elementos, podia explicar a origem e a diversidade universal. Estes elementos
eram duas forças e quatro matérias: 1o) o amor;
2o) o ódio; 3o) o fogo; 4o) o ar;
5o) a água; 6o) a terra. Com este filósofo
surge uma combinatória efetivada pela força do amor e uma
descombinatória levada a cabo pela força do ódio.
O universo, assim como todos os seus corpos, transita de uma composição
para uma decomposição e vice- versa. A única coisa
que permanece são os elementos primordiais. Empédocles também
esboçava uma teoria sobre seres vivos. Por não possuir uma
concepção celular ou genética da vida, ele considerava
os membros de todos os animais como elementares. Da combinatória
destes membros surgia todos os seres conhecidos. Mas ela também
dava vida a monstros que posteriormente não conseguiram sobreviver.
A zoogonia de Empédocles postulava uma espécie de animal
ou corpo potencial.
Com Leibniz, foi retomada a questão do paradoxo da impossibilidade. O filósofo, autor da monodologia, das características universalis e do cálculo diferencial, dedicou seu primeiro trabalho filosófico à Ars Combinatória, aproximando a matemática da filosofia. Para ele, era possível criar um alfabeto do pensamento, pelo qual todas as coisa poderiam ser pensadas, criadas e inventadas numa espécie de cálculo de todo pensamento possível. Esta proposta, no século XX, será tratada, através do cálculo lógico, por Frege, Russel e Wittegeisnstein . Quanto ao paradoxo da impossibilidade, Leibniz proporá dois novos conceitos: os compossíveis, quando as possibilidades podem ser combinadas e, portanto, são convergentes, e as incompossibilidades, quando de nenhum modo elas podem ser combinadas e, portanto, são divergentes. Para Leibniz havia um critério, quando Deus criou o universo. Dentro de todos os mundos possíveis ele criou aquele que é o mais perfeito. O critério da perfeição cria uma seleção na escolha da combinatória divina. É importante salientar que Leibniz introduziu um critério seletivo no seio da combinatória para que esta fosse compossível. Mas, antes de tais soluções e seguindo o caminho dos cabalistas ainda no século XIII, Raymond Llull iria inventar a Ars Magna, obra que consistia num mecanismo que, através de rodas concêntricas, possibilitava combinar letras e atributos. Para alguns pesquisadores, este mecanismo de Llull preconizava o computador, pois tendia para um automatismo combinatório. No século XX, muitos artistas e cientistas se utilizaram das artes combinatórias. Destacamos dois exemplos: Borges e o grupo OULIPO. Com Borges, uma nova estratégia foi introduzida. Os cabalistas haviam percebido que a combinatória do nome de Deus, se levada à exaustão, tornava-se infactível, pois era impossível fazer todas as permutações, e a infinitude inviabilizava a obra do iniciado, pois ele nunca a cumpriria. Borges parte de um outro ponto de vista. Em vez de a obra infinita e incompossível ser criada diacronicamente, o que a torna infactível, Borges a faz, em sua obra "A Biblioteca de Babel", com seus compartimentos hexagonais. É o resultado prévio de uma combinatória de letras, de frases, de livros e de estantes ao infinito. Mas tudo isto só é possível, se a determinação completa da combinatória se apresentar no conto de uma só vez. Ela tem que se dar instantaneamente, senão não acontece. Só a ficção parecia ser capaz desta proeza. Uma tentativa em CDROM foi produzida em 1996 pelo governo argentino através da Secretária da Cultura da Nation. Neste CD-ROM, chamado de Biblioteca Total, pode-se percorrer os seus corredores e retirar livros de suas estantes; pode-se passar para um andar superior e assim por diante, simulando a infinitude da biblioteca. É que as páginas do CDROM estão ligadas entre si formando um grande looping, o que ocasiona a sensação de infinitude. Às vezes, a simulação pode oferecer a sensação desta completude ao expectador. O poeta e escritor francês Raymond Queneau não recorreu a tal simulação, mas concebeu, na década de 60, um livro intitulado Cent mille millard de poemes, onde a determinação completa da combinatória estava posta, através de dez sonetos em que cada um possuía 14 versos. A manipulação de cada uma destas páginas-versos possibilitava uma combinatória. Esta era expressa pelo número dez elevada a décima quarta potência, o que resultavam um trilhão de sonetos possíveis. Queneau chamou este processo de literatura exponencial. A obra não era o resultado de uma combinatória, mas a própria combinatória. Ela era factível para o autor, mas irrealizável para o leitor, pois este em sua vida não teria tempo suficiente para elaborar todas as combinações diacronicamente. Era, portanto, sincrônica para o autor e incompleta para o leitor. Raymond Queneau e François de Lionnais fundaram o grupo OULIPO ( Ouvroir de Littérature Potentielle) . Este grupo tinha por objetivo unir literatura e matemática e, por conseqüência, as "arte combinatoria" . Além de seus fundadores, o grupo era formado por de vários poetas e escritores, tais como: Georges Perec, Italo Calvino e Paul Fournel. Interessa-nos estes dois últimos. Para Italo Calvino, a potencialização através do computador de uma história qualquer, utilizando a combinatória, não levava necessariamente a um resultado satisfatório. Muitas histórias tornavam-se demasiadamente fantásticas, de um no sense gratuito . Para ele a potencialização tem que levar em conta a seleção. De todas as estórias possíveis somente algumas terão o direito de existir. Um dos critérios utilizados por Calvino é a compatibilidade entre as relações. Calvino, como Leibniz, exigia para a combinatória o uso da seleção a fim de torná-la mais coerente. Já para Paul Fournel, teatrólogo, o problema residia em outro lugar. Numa estrutura em árvore, a narrativa se dava por decisão, ou para cá ou para lá, porém as bifurcações nos levavam a um número surpreendente de novas histórias ( o problema exponencial). A solução se fará numa árvore aparente, pois muitas cenas poderiam ser o que ocasionava uma redução substancial do número de cenas e da memória dos atores. O que é realmente importante apontar é que a estrutura tree é uma espécie de mapeamento que facilita a navegação em hipertexto. Esta explanação histórica sobre a "arte combinatória" foi a nós necessária para que pudessemos justificar certos critérios e posturas que iremos utilizar no Cyberdance, uma dança no espaço virtual. Muitos destes conceitos nos inspiraram e nos orientam para a elaboração de nosso trabalho. O corpo potencial de Empédocles, entre outros por exemplo, nos permitiu pensar em um bailarino cujo membros eram desarticulados, possibilitando assim a elaboração de outros corpos e de outros bailarinos ao usar as combinações possíveis. |